sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A tua carta era uma Carta de Amor

Há duas semanas que já se fazia um longo silêncio entre nós. E duas semanas depois decidiste escrever-me. Olho para o envelope e vejo a data do carimbo no selo. E eu gosto de cartas com selos (e quantos mais selos melhor!) e não com estas etiquetas brancas que saem da impressora de forma automática lá com o preço que temos de pagar. E vejo que o selo tem a mesma data do cabeçalho que colocaste na folha de linhas que dobraste a meio e que colocaste dentro do envelope.

Eu retirei a carta da caixa do correio no sábado de manhã do fim-de-semana seguinte. Acho que estremeci ao ver o teu nome no local do remetente. Acho que fiquei com medo do que pudesse encontrar lá dentro. Não a abri de imediato. Só a viria a abrir na noite do dia seguinte, não por desinteresse, mas porque não tinha o tempo suficiente para me dedicar a ela. E não a queria ler, apressadamente, por entre um monte de coisas que tinha de fazer nesse fim-de-semana, em que nem passei a maior parte do tempo em casa. Uma carta tua teria de ser lida com toda a calma necessária.

E afinal a tua carta era uma carta de amor. 

Eu sei que não se agradece por se receber uma carta de amor. Agradecer-te a carta seria como agradecer-te por gostares tanto de mim a ponto de me escreveres uma carta. De amor.
E a verdade é que eu passo a vida a queixar-me da minha pouca sorte no que ao amor diz respeito - e bem sabes que tenho as minhas razões - mas pensando bem, quantas pessoas hoje em dia, com a minha idade, é que se podem orgulhar de receber uma carta de amor? Fiquei a pensar nisso.


Não é um e-mail, não é uma mensagem escrita de telemóvel, não é uma foto nua. É uma carta de amor. E as cartas manuscritas, sejam de amor ou não, têm o seu ritual próprio, que hoje em dia pouca gente estará para se dar a esse trabalho. E receber uma carta de amor tem de me fazer sentir um privilegiado. Algures neste planeta, há alguém que perde do seu tempo a pegar numa caneta e a colocar numa folha de papel todo o sentimento que me dedica. E isso só pode ser amor.

E acreditas que, curiosamente, nesse mesmo domingo em que só à noite haveria de abrir a tua carta para a ler, andei pelos mesmos sítios por onde andamos juntos? Já durante a semana andava a pensar que me apetecia lá voltar. À noite achei curiosa a coincidência. E vi-nos deitados naquele prado verde, em cima daquela mantinha que eu tinha levado na mala do carro, e onde, no meio daquelas pessoas por lá espalhadas, aqueles cães nos vieram fazer companhia, e, deitados ao nosso lado, pareciam mesmo que nos estavam a guardar, fosse lá do que fosse.   

Mas a tua carta, apesar de me ter deixado feliz, deixou-me também triste, quem sabe, com a mesma tristeza ou angústia com que a escreveste. E só pode ser muito triste, quando duas pessoas reprimem o que sentem, como se fosse uma semente que não pode germinar.

E eu acho que o amor platónico, aquele amor que não reivindica e que nunca se concretizará é isso: um fruto que originou uma semente geneticamente preparada para poder germinar, mas que simplesmente não encontrou ainda todas as condições para nascer. Mas mesmo que nunca germine ela estará sempre lá... E tu sabias que há sementes, que resistem e resistem, e conseguem germinar ao fim de dois mil anos? É verdade. 

Há sementes que conseguem arranjar uma forma....


# JÁ NINGUÉM ESCREVE CARTAS

2 comentários:

  1. Também já escrevi e recebi cartas e é sempre um sentimento especial, ver a letra, o selo a morada escrita "de" "para" e às vezes dentro do envelope ou a parte algo mais a acompanhar a carta, que se guarda e que mantêm essa memória viva, às vezes de tempos idos melhores, outras do presente ou esperança do futuro, concordo, para escrever uma carta a disposição, o sentimento não pode ser o mesmo de uma sms, mail ou qualquer meio mais directo e rápido que se consome nessa rapidez e facilidade.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Boa noite,
      E essa facilidade conduzirá também à inevitável perda. Muita da informação que nos chegou até hoje, com milhares de anos, chegou porque foi escrita em papel, desde o pergaminho. Hoje, tudo o que se escreve hoje, a zeros e uns, mais dia menos dia, acabará por se perder. Já ouvi gente mais nova, queixar-se disso, que perdeu fotografias, e coisas mais pessoais porque lá está, estavam no formato digital e não salvaguardaram os dados. E até a destruição é diferente. Eu tive uma namorada que quis fazer uma fogueira com todas as coisas do namorado anterior. E eu não lhe pedi nada, acho que ela poderia muito bem guardar tudo aquilo, tal como eu também guardo. Já no digital é muito mais simples: shift+delete e tudo desaparece!

      Eliminar