sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Viver sem televisão

A caixa mágica entrou na minha vida a preto, branco e numa escala de cinzentos, pois a cor só chegaria aos televisores portugueses em 1980. Em criança tinha dois canais, mas no fundo era um canal e meio, pois o segundo canal da RTP só abria as emissões ao fim da tarde. A televisão esteve também presente durante dois anos da minha educação, no primeiro e segundo anos da Telescola, em que nos primeiros dez minutos de cada aula, ligava-se a televisão na RTP2 e alguém explicava a matéria que se ia abordar nesse dia.

À noite, o Telejornal tinha só meia-hora porque não se enchiam os noticiários com chouriços como hoje, mas ainda assim, naquele tempo, pareciam-me que demorava uma eternidade a passar, pois queria era ver a novela que dava a seguir, e que aquela hora, toda a gente a via religiosamente. E depois de uma história, ou de um curto desenho animado, chegava a música do Vitinho, que apareceu a meio da década de oitenta e mandava as crianças para cama, numa altura em que as crianças não ficavam, como acontece hoje, acordadas e com televisão no quarto, até de madrugada. E de madrugada não havia publicidade noite dentro, as emissões acabavam, muito respeitosamente, ao som do hino nacional.


Só na década seguinte chegaria a concorrência dos canais privados, primeiro a SIC e depois o canal da igreja, a TVI. E foi à custa do canal de Deus, que o padre aqui da paróquia ainda embolsou uns valentes cobres, pedindo aos fieis que comprassem ações da TVI! E que boa ação que ele fez! Acho que o meu avô ainda deu cinco contos, e ficou sem eles, e sem as boas ações de Deus!
Nos meados da década de noventa chegava também a oferta da TV Cabo, e eu já estava eu a acabar a adolescência e já não me sentia minimamente atraído por programas infanto-juvenis. Gostava deles sim, mas foi no momento próprio, quando era criança, e quando infelizmente a oferta era muito escassa quando comparando com o que se passa hoje. 

Com os canais privados chegaram também as audiências, os patrocínios e a publicidade, e a obrigatoriedade de determinado programa, e do próprio canal privado ter audiências para assegurar a sua viabilidade económica. Se até então só existia um canal onde fazer publicidade, a RTP, canal esse que não tinha concorrência, e os programas eram integrados mais num serviço público de cultura, educação e divertimento, desde o alargamento da televisão aos canais privados, que a única preocupação que as televisões passaram a ter foram as audiências. No final dos anos noventa a SIC, poucos anos depois de ter aparecido no ar, já liderava as audiências, a curta distâncias ficava a RTP e a TVI afundava-se cada vez mais.

A SIC chegou, e trouxe consigo o programinha-deprimente, que explora a vida íntima das pessoas, com programas como Perdoa-me, All you need is love, Ponto de Encontro, entre muitos outros dentro do género, a fazerem a delícias do voyeurista português. Eram também os tempos da "televisão em direto", em que os homens das câmaras apareciam às frente das câmaras que estavam a filmar, era tudo ao monte e supostamente muito modernaço, nos tempos do do Big Show SIC do Baião e do macaco Adriano, e do Muita Lôco do Figueiras.



Curiosamente seria a mesma SIC a recusar o maior filão, o programa que trouxe a verdadeira televisão em direto, o maior explorador da vida alheia de sempre!
Eu já estava a trabalhar quando eu 2000 apareceu o Big Brother - O Grande Irmão, e não se falava noutra coisa. Era o programa dos dramas da "vida real"! E eu fui acompanhando esta primeira edição, desde logo porque queria saber como era, depois porque do ponto de vista da análise do comportamento humano achei que poderia ser interessante. O programa foi tendo o seu sucesso, mas foi depois de um concorrente agredir uma outra concorrente, com direito a abertura no Telejornal da TVI e tudo, que finalmente a coisa disparou, e o canal se tornou, até aos dias de hoje, líder de audiências.

Correndo atrás do prejuízo, a própria SIC, que recusou o Big Brother, passa rapidamente ao contra-ataque, numa coisa ao género do "se não consegues vencê-los junta-te a eles"! E aparece então com vários genéricos, mas de qualidade ainda mais duvidosa, como Acorrentados, Masterplan - O Grande Mestre (com Herman José e Marisa Cruz) ou o Bar da TV, mas os efeitos destes medicamentos genéricos não seriam os mesmo da droga original da TVI e rapidamente saíram de cena, ao passo que o conceito Big Bother, quatorze anos do primeiro, e de não sei quantas edições depois, continua no ar, sendo sempre - e não sei como! - líder de audiências em Portugal.


Televisão por cabo só tive muito recentemente, durante os últimos cinco ou seis anos talvez. Não acompanhei o fenómeno de uma juventude, que parece que foi o Curto Circuito e o canal onde dava e continua a dar, a SIC Radical. Mas eu tive televisão por cabo, não desejo específico, mas simplesmente porque foi a forma mais barata de ter Internet, e então, em relação ao que pagava, passei a ter uma Internet melhor, com a oferta da televisão por cabo, e como dividia a fatura com outra pessoa de família, pareceu-me ótimo.

Quando comecei a ver televisão por cabo fiquei como o outro, "maravilhado"! principalmente pelos documentários. Mas rapidamente o encanto desvaneceu-se, pois apercebi-me que no cabo a coisa repete-se, e repete-se e repete-se! E é uma verdadeira seca! Ultimamente tinha não sei quantos canais, na maioria em duplicado com os HD, e era só para fazer ginástica aos dedos, porque programação de jeito e que não fosse repetida era complicado encontrar. Com a televisão por cabo quase que deixei de ver os quatro canais de sinal aberto, excetuando uma ou outra coisa da RTP2, como o Biosfera ou algum documentário.

A maior maravilha e revolução que a televisão por cabo trouxe, foram as gravações automáticas, porque com as gravações tinha-se acabado de vez com a publicidade, e além disso, se não estava a dar nada de jeito no momento, podia-se sempre ver o programa que não pude ver e que deu noutro horário, num outro qualquer dia e isso era uma enorme vantagem.

Mas recentemente a pessoa da minha família, que vive no piso debaixo, e dividia a fatura de televisão e internet comigo, passou a trabalhar fora e só regressa a casa ao fim de semana, logo não pode usufruir nem da televisão (que já não via) nem da internet, e logicamente, estava a pagar um serviço que não usava, ao passo que agora precisava era de um serviço móvel de internet. E decidimos acabar com a nossa sociedade de televisão e internet. Ora eu sozinho, não ia pagar o valente roubo que o único prestador deste serviço cobra aqui na zona, e como tal comprei unicamente uma internet portátil e caguei para a televisão por cabo, porque quem não tem dinheiro (não deve) ter vícios. Mas já agora deixo o concelho - Quer baixar o o custo da sua fatura de televisão e internet? Não negocie o valor! Diga que vai cancelar o serviço! Ligam-se logo a dizer que fazem por menos de metade do valor! Interessante não é?

E de um dia para o outro fiquei sem televisão.
É verdade que tenho um televisor no quarto, mas que não dá televisão nenhuma, pois a partir do início do ano de 2011, assistimos, por um lado, a um dos maiores roubos generalizados de sempre, e por outro a um tremendo retrocesso tecnológico.

Tinha chegado a televisão digital terrestre, a TDT. As promessas iniciais era que as pessoas iriam ter mais canais em sinal aberto. Foi mentira. Outra das promessas era a de que a televisão passaria a ter mais qualidade que anteriormente. Outra valente mentira! Desde a introdução da TDT que os programas mais parece que são todos feitos em playback, sem falar que de vez em quando a imagem congela, ou então começa a desfazer-se aos bocados! Depois não é preciso ser muito inteligente para perceber que todo o processo entre o regulador ANACOM e a empresa regulada, a PT, foi tudo muito escuro e pouco transparente, beneficiando a PT duplamente. Por um lado a PT beneficiou pois financiou-se à custa das pessoas que tiveram de comprar os descodificadores, quando inicialmente seria a própria PT (como seria normal que fosse) a pagar para repor a televisão às pessoas, depois, aliciando as pessoas a aderir a um serviço pago da PT-MEO, e não terá sido coincidência que tenha aumentado o número de clientes em 185% no período de implementação da TDT. Ah pois é! Paga trouxa!

Quando fiquei sem televisão por cabo, refleti e cheguei à conclusão, que a oferta dos quatro canais não justificam sequer que compre um descodificador. A oferta televisiva é, nos dias de hoje, pobre, muito pobrezinha mesmo. Se em tempos gostava, por exemplo, de ver o Telejornal, hoje nem isso. Os Telejornais, se antigamente tinham meia hora como já disse, hoje têm o dobro do tempo na RTP, e nos privados tem mais de hora e meia! Os Telejornais já não são noticiários, hoje são mais manipulação, entretenimento e enche-chouriços. Os Telejornais, agora até têm convidados "independentes", geralmente dos quadros do PSD, em formato tempo-de-antena, que depois explica as notícias às pessoas, como se estas fossem umas deficientes mentais, que não as soubessem interpretar convenientemente. Assim é muito melhor, dá-se a notícia já devidamente higienizada e filtrada pelo crivo da manipulação política.

Se um canal se lembra de trazer um programa idiota mas que tem audiência, logo rapidamente os outros dois o seguem, seja para fazer programas de culinária, sobre gordos, crianças a cantar, ou os programinhas deprimentes das festinhas da terra, muito em voga agora. Se determinada pessoa tem um programinha deprimente com algum sucesso em determinado canal, logo é assediada e transfere-se para outro, ganhando um salário milionário, em algo muito parecido com o que se passa com as transferências dos jogadores nos clubes de futebol.

Por estes dias, enquanto passava os olhos pelas capas dos jornais, vi uma pequena referência à Ana Bola, que dizia que "A televisão começa a ser uma coisa para velhos". E tem toda a razão. Estou em crer que cada vez mais, a televisão como a conhecemos, ficará cada vez mais confinada aos velhos, ou aos doentes dos hospitais, ou a quem não tem outras alternativas, como a internet por exemplo.

Eu deixei de ver televisão. Há quem diga acertadamente, que a televisão estupidifica, quem sabe mesmo se eu não passe a ficar menos estúpido. Espero que sim!

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