terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Considerações sobre a Virgindade

Por estes dias fiquei a saber que a Ordem dos Psicólogos repreendeu Quintino Aires, o conhecido sexólogo, por este, no programa "A hora do sexo" da Antena 3, ter criticado a virgindade aos vinte e seis anos de um concorrente do galinheiro da TVI, que alegadamente só queria, como bom católico apostólico romano, cometer esse grave pecado depois de casar. Mais do que comentar aqui o ridículo da queixa das virgens ofendidas deste país, ou o ainda mais ridículo condenamento da Ordem, vou aproveitar antes para refletir sobre o tema.

Para início de conversa fui ler o que diz o dicionário sobre a palavra virgindade, porque as palavras e as suas definições são importantes, para depois a partir daí podemos refletir.

Virgindade: Estado de quem nunca teve relações sexuais; pureza; candura.    

Posto isto, vamos então seguir o que nos diz a definição, e assumir que alguém só perde a virgindade, quando se envolve sexualmente com alguém. 
Mas então quando é que dispara o alarme e a pessoa pode dizer "já não sou virgem"? O que é que se considera afinal a primeira "relação sexual"? É um beijo? Estar no roço? É enfiar o pénis na vagina? E se forem dois homossexuais é o quê? Fazer um broche? E se forem duas lésbicas? Roçarem-se uma na outra? E se uma mulher se fartar de fazer sexo anal com diferentes parceiros e mantiver o hímen imaculadamente intacto, tendo a vagina tecnicamente virgem? Vamos considerar esta mulher como sendo virgem, apesar de ter alta rodagem traseira? Segundo a definição não, não é virgem, mas cheira-me que isto não é uma opinião consensual!
Outro exemplo, vamos supor um casal heterossexual, ambos virgens, que têm uma experiência sexual, mas em que não é conseguida a penetração vaginal, esteve quase, mas só mais à frente, com outro parceiro, é que é consumada a penetração. Estas pessoas perderam a virgindade quando? No primeiro contacto sexual, ou só vamos considerar a perda da virgindade quando a serpente bate no fundo da gruta?

No fundo, provavelmente nada disto interessa, a nossa vida é um conjunto de experiências e não temos de classificar tudo, mas é verdade que as coisas podem, nem sempre ser preto ou branco. 

Mais importante que assinalar a mudança de estado, de virgem para... - boa pergunta - qual é o antónimo de virgem?.. como dizia, mais importante será mesmo refletir sobre a importância ou não da preservação da virgindade. 

A Virgem / Gustav Klimt / 1913


Aprendemos, e eu sempre fui dessa opinião, que nos devemos guardar para que aconteça com alguém especial, que não o devemos fazer demasiado cedo... Mas quando olho para trás e olho para o meu caso, sei que sim, que esperei pela altura certa, (hoje se calhar diria que esperei demais) que foi com a pessoa que gostava e foi como deveria ter sido. Mas afinal hoje, de que valeu ter esperado pela pessoa certa para enfiar a serpente na toca, se anos mais tarde as pessoas acabam por se separar?
Não foi o meu caso, mas e se a pessoa guarda-se para uma pessoa especial, e depois o príncipe se revela uma valente merda?

Eu tinha um amigo que me dizia esta coisa interessante "para se casar tem de ser com uma mulher virgem". E isto é duplamente interessante de se analisar pois, ele queria uma mulher virgem para casar, contudo, todas as mulheres com quem não casou, de certeza que não as deixou virgens para os outros! E por outro lado, ele queria uma mulher virgem, mas elas já não tinham direito a uma serpente virgem! Acho que é o típico machismo, como nos casos de "se a minha namorada quiser trazer uma amiga para casa está à vontade" mas se a namorada sugere trazer um amigo está o caldo entornado. É a democracia que só funciona para um dos lados!

E nos dias de hoje, faz algum sentido que,  homem e mulher, esperem para depois de casar para ter sexo? Assim de repente até recordo um episódio solto da série "O sexo e a cidade", em que a Charlotte, a mais conservadora das quatro senhoras, que decide que, nesta última relação só teria sexo depois do casamento. Não era virgem, já tinha fornicado muito antes, mas decidiu guardar esse momento especial com esta pessoa, só para depois de casar. E decidiu fazê-lo apesar da imensa vontade que tinha que a coisa acontecesse de imediato! Isto é ficção, não é realidade, mas nesse episódio, creio que ainda mesmo de casar, no dia anterior, não resiste, e tem mesmo sexo, ou melhor tenta, pois acaba por descobrir por o mastro do rapaz não não endireita convenientemente! 

Uma casa, tal como um casamento, são para a vida (sorriso!), então vejamos a coisa por este prisma: Alguém no seu juízo perfeito compra uma casa sem a analisar muitíssimo bem? Não pois não? Então por que raio alguém não quer experimentar sexo antes de casar, com a única pessoa (sorriso!) com quem o vai fazer para o resto da vida? E se depois a casa não for do seu agrado? A casa ainda dá para fazer obras, mas há certas coisas que nem com obras lá vai!

O sexo é só sexo, não é mais nem menos que isso, mas ninguém pode achar que, sem experimentar, tudo depois vai ser fantástico, só porque se ama tanto aquela pessoa. Primeiro, não é por amarmos alguém, que o sexo com essa pessoa em particular será melhor ou pior que com outras pessoas. Pode ser fantástico e se calhar em sorte que seja, ótimo, mas também pode ser uma valente merda! E pior, se a pessoa nunca experimentou antes com outras pessoas, nunca sequer saberá que afinal aquilo poderia ser muito melhor do que é. 

Não quero com isto banalizar a virgindade, de maneira nenhuma, até porque só se tem uma oportunidade de a perder, logo, é bom que as pessoas estejam cientes disso, mas também não é preciso fazer um bicho de sete cabeças com isso. Acho que se deve valorizar, mas isso tem a ver com cada pessoa, e só cada pessoa sabe o quanto isso é ou não importante para si. Por outro lado, valorizar a virgindade a ponto de só escolher uma pessoa virgem para casar, acaba por ser tão ridículo, como nunca ter tido sexo com a pessoa com quem se vai casar! Além de que, hoje em dia, encontrar uma pessoa virgem para casar, só se for mesmo virgem nos ouvidos, e ainda assim, com tanto fetiche que para aí anda, não sei não! 

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