sábado, 22 de julho de 2017

Um Ginásio é um Sítio que Cheira a Chulé

Até ontem, eu nunca tinha entrado num ginásio. Nem numa sala de judo, de boxe ou num ringue de hóquei em patins. "Isto é tudo muito old-school" disseram-me no ginásio.  E de facto reparei que aquelas máquinas diabólicas que estavam naquele ginásio já deviam ser quase tão antigas como as G3 portuguesas usadas na guerra colonial! 

Quando desconhecemos determinada coisa, como eu desconhecia (e ainda desconheço) o que é um ginásio, vamos criando uma imagem (certa ou errada) baseado em tudo aquilo que ouvimos acerca. E até hoje o que eu sempre achei, é que um ginásio é um sítio onde ninguém gosta de ir para fazer o que se lá faz. A ideia que tenho (e que pode ser errada) é que as pessoas pagam uma mensalidade, que automaticamente sai da conta bancária, para se obrigarem a fazer algum exercício físico que na verdade não gostam de fazer, porque se gostassem iam correr, andar de bicicleta, ou compravam até uma ou duas máquinas de treino para ter e usar confortavelmente em casa quando lhes apetecesse.

Então, para se obrigarem a fazer algo que detestam, as pessoas pagam bom dinheiro, todos os meses, para se obrigarem a fazer exercício. Porque se não mais lá puserem os pés, o dinheiro continuará a sair e ficam com a consciência pesada, e lá vão elas, quando calha, uma ou duas vezes por semana, forçarem-se a fazer algo que não gostam.
E isto só pode ser um negócio genial, afinal, vende-se algo que as pessoas não precisam, que não gostam de fazer, mas só porque é moda e fica bem fazer, lá vão para os ginásios fazer o que não gostam de fazer e que podiam fazer sem gastar um tostão.


E até ontem nunca tinha entrado num ginásio, numa sala de judo, de boxe nem num ringue de hóquei em patins.

Lá, vi diversos quadros nas diferentes salas. Alguém supostamente famoso, frases motivacionais e desenhos dos músculos do corpo humano. No chão da sala de judo, placas azuis, que pareciam peças de um puzzle gigante a cobrir todo o espaço. E na sala de boxe estavam pendurados vários sacos. Não pude resistir, apalpei-os e dei dois ou três golpes com as mãos. Mas achei mais interessante experimentar com os pés. E depois de pontapear vários sacos a meia altura, dei um pontapé no saco mais pequeno, todo preto, e o resultado foi achar que podia ter partido o pé de tão duro que aquilo era!

Até ontem nunca tinha entrado num ginásio, mas agora já fiquei a saber um pouquinho melhor como é. E uma das coisas que pensei foi: um ginásio é um sítio que cheira a chulé.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Sonhos Destruídos


"Crescer e tornarmo-nos adultos é ver todos os nossos sonhos serem destruídos". 
(N.)

Para o Meu Anjo Caído


As I draw up my breath,
And silver fills my eyes.
I kiss her still,
For she will never rise.

On my weak body,
Lays her dying hand.
Through those meadows of Heaven,
Where we ran.

Like a thief in the night,
The wind blows so light.
It wars with my tears,
That won't dry for many years.

"Loves golden arrow
At her should have fled,
And not Deaths ebon dart
To strike her dead."


For My Fallen Angel / Like Gods of the Sun / My Dying Bride (1996)

domingo, 16 de julho de 2017

Tragédias? Como era no governo de Passos Coelho?!

Tenho ouvido, aqui e ali, com grande surpresa, a propósito da tragédia de Pedrógão Grande, algumas declarações dos dirigentes dos partidos de direita, criticando a atuação dos atuais ministros, quando ainda há pouco mais de um ano eram eles que estavam na cadeira de poder. 

E a minha pergunta é: será que já ninguém se lembra do que se disse no governo de Passos Coelho no Outono de 2015? Uma grande inundação abateu-se sobre Albufeira, com grandes prejuízos e uma vítima mortal a lamentar.



No meio de todo aquele cenário, eis que chega o ministro da Administração Interna Calvão da Silva e profere as seguintes pérolas:

“Deus nem sempre é amigo e de vez em quando dá-nos a provação”

Sobre a vítima mortal, disse que o homem de 79 anos "Entregou-se a Deus" e "com certeza que lhe reserva um lugar adequado".



E segundo ele, as inundações no Algarve deveram-se a uma "fúria demoníaca", a um “ato de Deus, um "act of God" como se diz numa língua estrangeira que a maioria das pessoas desconhece. 

E sobre quem ficou com prejuízos avultados, as pessoas tinham era que ter um seguro:

"Sei o que é ser pobre e tentar ser alguém. A mobilidade social funciona para todos e todos temos de ter a nossa responsabilidade também no sentido de dizer ‘eu tenho um negócio, vou fazer o meu seguro, para que, se o infortúnio me bater à porta, tenha valido a pena pagar o prémio"


Em face disto, aos olhos dos partidos de direita, ficámos a saber que o incêndio de Pedrógão Grande deveu-se à ira de Deus ou à fúria do Diabo. Um dos dois, tanto faz! No fundo devíamos era ficar felizes porque aquelas pessoas todas entregaram-se a Deus, mas Ele reserva-lhes um lugar melhor! Com jeitinho os familiares ainda deviam era pagar! 

"Se tem um familiar do agregado familiar que se "entregou a Deus" e foi para o Hotel Celestial, não se esqueça de declarar no IRS e pagar o impostozinho"!

E quem ficou sem casa? Bom, certamente que a maioria das pessoas guardou um dinheirinho para ter um seguro que cubra os prejuízos. Quem não tinha? Olha, azar. É a vida... (escrever aqui outra expressão religiosa qualquer)!

Estamos conversados sobre a sensibilidade dos fascizóides. 

Café Frio

Ora bem, depois de em 2016 a Organização Mundial de Saúde (OMS) ter vindo alertar que beber café (quente) provocava cancro, e agora, apenas dois anos depois, já vir dizer, apresentando um estudo que, supostamente, o comprova, que quem bebe mais cafés vive mais anos, então só posso concluir uma coisa:
Há por aí muita gente a beber muitos cafés frios! Ou então beber café quente provoca cancros que prolongam a vida, mas até do que ser saudável e não ter cancros!


"Por favor, era um cafézinho... mas numa chávena bem gelada!"

segunda-feira, 10 de julho de 2017

O Natural deveria ser o Normal

"Neste livro explica também qual é que é a diferença entre um parto natural e um parto normal...


Pois, porque o normal está muito longe do que é natural. Nós hoje já consideramos normal um sumo de laranja artificial. Um sumo natural custa muito mais dinheiro. Não devia.
Portanto, pegando um pouco nesse exemplo, o que as pessoas hoje chamam de parto normal, são partos altamente intervencionados e que se nós fôssemos perguntar a um bebé, se um bebé falasse no final desse parto, se calhar nós não iríamos gostar de ouvir aquele bebé. Por isso nós temos de ter algum cuidado e tentar desconstruir aquilo que é normal para que seja mais natural. Tal e qual como se está a fazer em tantas áreas da sociedade, nomeadamente a agricultura. O que é normal, já não é natural também. E está-se a procurar isso. E vários países da Europa também já estão a crer que o natural seja o normal por uma questão de saúde das pessoas, porque sabemos que o natural é mais saudável. E quem duvida disso, realmente, tem de procurar informação. 



sexta-feira, 7 de julho de 2017

7-7-7

Passam hoje dez anos que estive em Panóias (Braga) para um concerto de Orphaned Land com as bandas portuguesas Thanatoschizo e Thee Orakle.

Há dez anos eu era como um pássaro que viveu toda a vida numa gaiola, e que de repente, quando é libertado sente-se preso. Bom, é verdade que eu nunca fui pássaro para saber ao certo o que eles sentem, mas eu só sei que depois de tantos anos numa relação, a abrupta separação deixou-me perdido, como o tolo no meio da ponte. Sem saber o que fazer. Mas saía muito, acompanhado e também sozinho, e ia a muitos concertos, nem que fosse só para não estar metido em casa a pensar sempre no mesmo.

E no dia 7 de Julho de 2007 rumei a um hotel à entrada de Braga, onde me encontrei com um casal amigo. Deixámos os pertences, e dirigimo-nos para o concerto. E há dez anos, como se pode ver no vídeo, as pessoas curtiam mesmo os concertos, não passavam o tempo todo de pequenas televisões na mão para filmar ou fotografar, como agora. E não que não houvessem boas máquinas fotográficas que também filmavam bons vídeos, mas o Youtube ainda só nasceria em 2005 e as redes sociais ainda não eram o que são hoje. Então, para quê filmar se não se pode mostrar aos outros? Essa é a questão. 

E foi a primeira e única vez que vi os israelitas Orphaned Land ao vivo:

 

Nora El Nora, ne'ezar begvura shuvi elay malki
Dodi refa, nafshi nichsefa, lebeitach malchi
Nora El Nora, ne'ezar begvura

Nora Ashira, Lach akabira, shir mahalali
Lecha etna menat chevly vegoraly

Bekol zman azor el nora, geza avraham, netzer tifa'ara,
Ata el hai noten torah

Em 2007 saiu também o EP "Secret" dos transmontanos Thee Orakle. Haveria de os ver a primeira vez em Maio na Fábrica do Som, no Porto. Vi o concerto a um ou dois metros dos vocalistas, e tanto gostei que até comprei logo o EP à saída. Foi uma banda que acompanhei em inúmeros concertos, e quase que me tornaria uma espécie de groupie, pois acabaria de privar com alguns elementos da banda, e ainda haveria de descobrir que o baixista vivia (enquanto estudava no Porto) a duzentos metros do meu trabalho.



...Bela era a cena
Ou de ter ainda o sentir
Deslumbrante a paisagem
Nessa onda levava-me serena
Á vela solta em plácida viagem...


E tu, por onde é que estavas há dez anos?



quinta-feira, 6 de julho de 2017

Carneiro daquele que sabe mesmo a Carneiro

Hoje levei carneiro para comer no trabalho. Mas atenção, era daquele carneiro que sabe mesmo a carneiro. Daquele que a Judite de Sousa comeu no Paquistão. Vamos lá ver se nos entendemos... É mesmo daquele que sabe a carneiro, não é daquele que sabe a peixe-espada!


terça-feira, 4 de julho de 2017

domingo, 2 de julho de 2017

Monogamia ocorre em Menos de 5% dos Mamíferos... e nem os Arganazes são fieis!

"O amor monogâmico acontece em algumas aves (como o mandarim) e em menos de 5% das espécies dos mamíferos. Entre elas, claro, estão os seres humanos, os castores, as lontras, os lobos e os arganazes-do-campo. 

E eu admiro extraordinariamente a sua fé nos seres humanos... para os pôr nesta lista com essa tranquilidade toda!


Arganazes-do-campo  (Todd Ahern)

Eles (os arganazes-do-campo) assim que acasalam, os machos e as fêmeas preferem sempre a companhia do se parceiro, andam sempre lado-a-lado e zelam muito pelos seus filhos. 

Mas repare uma coisa que disse, que é importante: assim que acasalam. Tem de haver acasalamento. Agora vamos pela estrada do costume nestes trabalhos, que é: e como é com os humanos?
A transposição imediata é dizer assim: a primeira pessoa com quem nós tivermos relações sexuais, nós ficamos com ela em relação monogâmica até ao fim da vida. 

O que acontece é que, como nós já dissemos (e neste artigo não vem mencionado e na minha opinião devia) é que mesmo nos arganazes monogâmicos, aquilo que se verifica é uma "monogamia social, porque pela análise genética dos bebézinhos arganazes, chegou-se à conclusão que em famílias monogâmicas, havia crias que não eram daquele pai. Ou seja (...) muitos deles são socialmente monogâmicos, mas sexualmente não são monogâmicos.  

O Amor é... (Diário)  - Júlio Machado Vaz


Se calhar foi o Raio que vos Parta Ou Factos Alternativos à moda Portuguesa

Primeiro foi o raio, o único responsável pelo incêndio de Pedrógão Grande:



Agora, mais de duas semanas depois da tragédia, o Instituto de Meteorologia vem contrariar a tese da polícia judiciária, e afirma que não pode ter sido um raio, visto que as primeiras descargas elétricas só foram registadas três horas depois do início do incêndio! Uns encontram a suposta prova, a árvore atingida pelo suposto raio, outros afirmam que não houve raio nenhum! 




Se calhar, quem começou o incêndio que vitimou 64 pessoas foi o raio que vos parta a todos!

Ou factos alternativos à Portuguesa:

De há quinze dias para cá, que isto tem sido um fartote de notícias e logo a seguir outras notícias a contrariar as anteriores!

Caiu um avião no combate ao incêndio.
Caiu? Não caiu nada! Nenhum avião caiu no combate aos incêndios!

Há pessoas a suicidar-se por falta de apoio psicológico.
Não há nada. Nenhuma pessoa se suicidou. Aliás, o apoio psicológico tem sido excelente!

Agora ontem ficámos a saber que material militar foi roubado da base de Tancos.

Vai uma aposta, que ainda vamos ficar a saber que afinal nenhum material foi roubado?
Deve ter sido só o tipo que fez o inventário que contou mal!

É  o rigor político e jornalístico no seu melhor.

As nossas rotinas dão poemas e filmes

Durante o dia apanhei na rádio - por duas vezes! - o programa CineMax, e daquela revista dos filmes que estão em cartaz, só um acabou por me captar a atenção. E começou por prender-me a atenção por causa do nome Jim Jarmusch, porque o último filme que tinha ido ver - sim já foi há muito tempo! - foi precisamente deste realizador, mas também já tinha visto pelo menos um outro, o "Homem morto".

E por grande coincidência, ao fim da tarde, uma amiga minha pergunta-me se não quero ir ao cinema ver o filme Paterson, precisamente o tal filme que me tinha chamado a atenção, e que tinha ficado a saber no programa, que se tratava do relato do quotidiano de um casal, durante uma semana. 


Escolhemos uma sala de um teatro onde eu nunca tinha estado, em detrimento das salas mais confortáveis dum num grande centro comercial, sem direito a pipocas nem refrigerante cancerígeno, nem a stress para estacionar o carro ou enorme bicha para a bilheteira.

Eu gostei do filme:

      

Não nos conta uma história com princípio e fim, conta-nos simplesmente o dia-a-dia, de Segunda-feira a Domingo, na vida de um de casal comum, desde o momento em que Paterson (Adam Driver) acorda, sempre depois das seis horas, mas sempre (como eu) sem despertador, até ao fim do dia, em que pega no cão Marvin (que a mulher terá querido comprar porque agora está muito na moda) e vai dar o seu passeio noturno, parando sempre no mesmo bar onde bebe a sua cerveja, e quando a sua cerveja chega ao fim ele sente-se feliz. Volta para casa, para no dia seguinte ter um dia exatamente igual ao anterior

O filme mostra-nos que a beleza da vida está nas pequenas coisas, nos pequenos detalhes. 

Paterson é motorista de autocarro na cidade onde nasceu e que se chama também Paterson. Todos os dias sai de casa, com a sua lancheira na mão, daquelas típicas que se vê nos filmes americanos, feitas de chapa (da marca Stanley, pormenor completamente irrelevante em que reparei) onde guarda a sande que a sua bonita, criativa e sonhadora mulher Laura (Golshifteh Farahani) lhe faz todos os dias, e onde vê a fotografia dela (que ela lá terá colocado) sempre que abre a tampa da lancheira. 


Peterson é motorista de autocarro numa cidade chamada Peterson. Peterson é também um livro de poemas escrito por William Carlos Williams que Peterson, o motorista, leu e tem na sua estante, juntamente com muitos outros livros só de poesia. No bar, o dono, coloca na parede todos os recortes de jornais de gente famosa que se relacionam com a pequena cidade Peterson, que nunca terá direito a autocarros novos. 

Certo dia o autocarro avariou. Não, "não explodiu numa bola de fogo", foi só um problema elétrico. E então Peterson tinha de contactar a empresa para rebocar o autocarro e uma menina perguntou-lhe se ele não tinha um smartphone, ao que ele respondeu que não. Ela ofereceu-lhe o seu para ele telefonar, que tinha um formato de boneco de criança. "Se calhar deverias comprar um", disse-lhe em casa a mulher. Ao que ele respondeu: "Durante milhões de anos o mundo viveu bem sem eles". Já a sua mulher tem computador portátil, Iphone, Ipad e essas bugigangas eletrónicas todas. 


Peterson é um motorista de autocarros,  mas é também um poeta. E em todos os tempos mortos, Peterson pega no seu caderninho secreto e põe-se a escrever poemas, que nem rimam, tal como ele gosta. No início da semana ele começa a escrever um poema para a sua mulher, e se é para ela, como ele diz, então é um poema de amor, mesmo que comece a descrever os fósforos preferidos do casal.  


A mulher há muito que insiste com ele, que ele deveria fazer alguma coisa com aqueles poemas, que ele guarda secretamente, até mesmo dela. E ela acha que "todo o mundo deveria conhecer". E isto deixou-me a pensar na minha última querida namorada... Também ela achava que eu deveria fazer qualquer coisa com a minha escrita, pois achava mesmo que eu escrevia muito bem, apesar de eu sempre lhe ter dito que achava que não, que só sabia escrevinhar, não sabia escrever. Pus-me também a pensar em todas as pessoas anónimas, com quem nos cruzamos todos os dias, pessoas com quem até podemos trabalhar e que pensamos que conhecemos, mas que não sabemos que, por baixo daquela camada da rotina de todos os dias, e muitas vezes de empregos pouco relevantes, escondem-se pessoas com dons que ninguém imagina. Um simples motorista de autocarros, pode ser um grande poeta e ninguém sabe. Nem ele mesmo. 


Para reler depois dos 60

Não que eu ache que vá chegar aos sessenta anos, afinal, desde pequenino que cresci a ouvir dizer que não passaria dos vinte. E depois a doença, todas as drogas que já tomei e continuo a tomar, e que me podem matar de mil maneiras diferentes, que sempre me fez ter a lucidez de me preparar para não morrer de velho. E é curioso que já me falaram de uma pessoa, com a mesma doença que eu, e que ao que parece tem os mesmos desabafos... Quem sabe talvez seja uma espécie de defesa que as pessoas doentes têm, de se preparem e verem a morte mais próxima que as outras pessoas que, cheias de saúde, não têm essa preocupação. Ainda assim, também acho que só morremos quando tivermos de morrer. 

Via Pintrest

Mas se lá chegares lembra-te disto:

Não te tornes um velho toleirão que se baba por qualquer rabo de saia e que faz figurinhas deprimentes como se atirar à auxiliar ou enfermeira do hospital, à empregada de mesa do restaurante, à massagista das termas, à mulher-a-dias, ou outra qualquer com quem te cruzes. Sim, é verdade que muitos homens sempre tiveram esse tipo de comportamento pouco civilizado desde jovens - ainda por estes dias uma amiga, quando passávamos por determinado local contava-te que se tinha cruzado ali por um homem a masturbar-se no carro - mas sempre ouviste histórias (muitas contadas pela tua mãe) de homens mais velhos que mais parece que chega ali uma altura e dá-se um clique. Perdem a noção do ridículo e parece que querem à força toda copular com tudo o que mexe, mesmo que muitas vezes já não tenham com o que mexer.  E lembra-te do que aconteceu com o teu próprio tio, aquele que foi o irmão que não tiveste, e que perdeu completamente o juízo.

Se chegares aos sessenta anos e estiveres sozinho, como é o mais provável que vá acontecer, não penses que de repente uma qualquer boazona de trinta ou quarenta anos, de repente se vai apaixonar por ti! Não, ela não vai interessar-se por ti. Não, não ela está interessada em ti por pareceres o Gandalf e não vai achar que tudo o que dizes é a coisa mais inteligente do mundo. Ela provavelmente só estará interessada em sugar-te o mais que puder. E se passaste toda a vida adulta sem recorreres a putas, não vais começar agora depois dos sessenta, pagando um preço ainda mais caro. Compra uma boneca mecânica robotizada. Nesse tempo qualquer adolescente terá uma pelo que custa agora um telemóvel. 

Confia em mim, o teu Eu de quarenta anos, que tem agora um cérebro em melhor estado do que oque vais ter. Sim, eu vou-te dando Ginkgo bilova a beber até lá! 

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Haja o que houver


Haja o que houver
eu estou aqui
Haja o que houver
espero por ti
Volta no vento
Ó meu amor
volta depressa
por favor
Há quanto tempo
já esqueci
Porque fiquei
Longe de ti
Cada momento
é pior
Volta no vento
Por favor

Eu sei, eu sei
Quem és para mim
Haja o que houver
espero por ti


Haja o que houver / O Paraíso / Madredeus / 1997

quarta-feira, 28 de junho de 2017

A Felicidade e a Solidão

Diz-se e lê-se por aí, que o amor, aquele amor que sentimos por outra pessoa, é partilhar a nossa felicidade. Que quem não está feliz sozinho, nunca o será a dois. Eu tendo a concordar, porque a nossa felicidade deveria ser um estado de alma interior, e não deveria depender de fatores como ter ou não companheiro(a), ter muito ou pouco dinheiro, ter muitos ou poucos amigos, etc. Mas por outro lado, nós também não somos felizes ou infelizes a tempo inteiro. Não é assim que a coisa funciona. Ao longo do dia é normal termos momentos mais felizes que outros, além de que todos vivermos fases mais felizes e outras de grande infelicidade, que por norma, estão quase sempre associadas ao amor, ironicamente, aquilo que se diz que nos completaria e nos faria felizes.

Por outro lado, isso do estado de alma interior também é muito bonito, mas a verdade é que, por exemplo, quando após um longo período de desemprego encontramos um trabalho na nossa área em que somos valorizados, ou graças a um novo tratamento passamos a ter uma outra qualidade de vida, ou ainda quando nos apaixonamos e somos correspondidos, a verdade é passamos a sentir-nos muito mais felizes do que antes. Nós não somos uma máquina, estanque, em que se carrega num botão e pronto, agora já estou estupidamente feliz! Ou como dizia o Barney: “When I'm sad, I stop being sad and be awesome instead”. Não, as coisas não funcionam assim, pelo menos comigo não!
Nó somos humanos e tudo o que nos rodeia é capaz de interferir, negativamente ou positivamente connosco, ainda que, mais numas pessoas que noutras.


E ultimamente, e não é de agora, que tenho vindo a sentir-me só...

No fundo eu sei que não precisaria de um batalhão de gente por perto para deixar de me sentir só. Até porque eu nunca gostei de grandes ajuntamentos, de muito barulho, de muita confusão. E nem sempre ter muitas pessoas por perto adianta de muito, pois pessoas há, que se sentem sós estando sempre rodeadas de gente. Talvez essa ainda seja uma solidão pior. No meu caso, talvez uma só pessoa chegasse para acabar com a minha solidão: mas teria de ser aquela pessoa.

Ainda por cima nunca tive muitos amigos, e muitas vezes o pior é não os poder ter por perto.

"O teu dedo é como o meu. Aponta sempre para longe", disse-me certa vez uma amiga que, lá está, só vejo uma ou duas vezes por ano.

Mas eu sou feliz nas minhas pequenas coisas... A meter as mãos na terra e a observar todos os dias as minhas plantas. A sentir o cheiro da relva acabada de cortar ou a ver as gotas de orvalho nas teias de aranha. Sou feliz a observar as pequenas coisas da natureza. Acho que nunca precisei de muito para me sentir feliz. Sei que cometo as minhas futilidades é verdade, mas nunca foi a falta do material que me deixou triste, aliás, muito do que me deixa triste e revoltado, sempre foi, desde cedo, o que me rodeia, como a falsidade, a injustiça ou a hipocrisia.

Mas às vezes olho para o jardim, que não é nada de especial, mas é o meu cantinho que eu criei, e estou ali, sozinho. Acho um desperdício não o partilhar com ninguém. Talvez o remédio para a minha solidão fosse partilhá-lo com outra pessoa. Talvez a solidão seja isso, falta de ter com quem partilhar as nossas coisas. Os nossos pensamentos, as nossas ideias, a nossa companhia... o nosso corpo. Ironicamente, é provável que ande por aí outra pessoa que se sinta só, e se calhar a nossa companhia seria o remédio para a sua solidão de outra pessoa.

O ser humano é um ser social, não é um lobo ou uma coruja solitária. E não me venham cá com essa tanga da felicidade interior, porque o que eu acho é que, ninguém consegue ser totalmente feliz sentindo-se só. E no meu caso, às vezes acho que não precisaria de muito. Bastaria a companhia de uma borboletinha em volta de mim, enquanto cuido do jardim.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Suicídio Político

Ele bem que já tinha avisado, que andava a refletir há muito tempo sobre a eutanásia....


Entretanto hoje decidiu suicidar-se politicamente:


domingo, 25 de junho de 2017

Algures. Longe de mim...



Olha...
Vem sentar-te comigo...
- Querida, a culpa disto é minha.
Não, é minha.
Ouve e não interrompas por favor. 
Ouve...
Se continuarmos juntos, estarás morta no Outono.
Não posso dizer-te mais, mas garanto-te que na realidade não envelheceste. 
Mal eu desapareça da tua vida, recuperarás a juventude e a beleza. 
Não me deixes, Dominic.
Por favor, não me deixes.
Eu estava condenado a perder tudo o que amo. 
Mas prefiro perder-te jovem e bela como eras e voltarás a sê-lo sem mim, do que ver-te morrer nos meus braços. 
- Prometeste que nunca me deixarias.
Eu vou deixar-te.
Se me deixares morrerei sem ti.
Se daqui a uns meses não estiveres como eras no Outono Passado, eu voltarei mal tenha notícias. São três ou quatro meses. Aguarda. 
Algures. Longe de mim. 
Não me deixes, por favor...


Youth Without Youth / Francis Ford Coppola / 2007 

Os Culpados do Incêndio de Pedrógão Grande

Tenho fugido das notícias sobre o incêndio de Pedrógão Grande como o Diabo da cruz! Mas digo-vos que não tem sido fácil! Basta abrir um qualquer site de um jornal, que de imediato levamos, no mínimo, com uns trinta artigos sobre o incêndio! Tenho de ser mesmo muito rápido no rato para não tropeçar numa qualquer desgraça pessoal. E depois também não é muito fácil escapar às notícias no local de trabalho apesar de, quando alguém me vem com o assunto, lá digo que não sei de nada sobre o incêndio, nem quero saber. Ainda assim, lá fiquei a saber que a Judite de Sousa andou ao chuto a um cadáver - suponho que, para estar verdadeiramente em cima da notícia! - ou que uma família, minutos antes de morrer queimada, tinha colocado no Facebook uma qualquer imagem romântica. Sim, informação  completamente irrelevante e desnecessária. 

Por isso, genericamente, acho que devo ser o português menos informado sobre o incêndio de Pedrógão Grande, desde logo porque não tenho televisão, não estou no Facebook, e não consumo todas aquelas noticiazinhas sensacionalistas, macabras e deprimentes que os nossos média são pródigos em difundir.



E como sempre, após uma desgraça como esta, lá vêm agora, comentadores ou políticos fazendo demagogia - ainda por cima a quatro meses de eleições - tentando retirar proveitos políticos, como verdadeiros soldados com as metralhadoras descontroladas, disparando em todas as direções, mas nunca disparando contra si mesmos.

Mas querem mesmo saber quem são os verdadeiros responsáveis pela tragédia do incêndio que vitimou 64 pessoas? Eu digo-vos!

Se toda a gente aponta a trovoada como a fonte de ignição do incêndio que vitimou 64 pessoas, então, processe-se desde logo Santa Bárbara, pois ela é a protetora das trovoadas. Seria da sua responsabilidade, desviar o raio para um sítio que não causasse danos de maior. E isto levo-nos ao óbvio São Pedro, como responsável máximo pela meteorologia. Num dia de altas temperaturas, mandar uns relâmpagos sobre um pinhal? Cadeia com ele!
Depois, também responsável, é a Nossa Senhora de Fátima que é da diocese de Leiria, distrito a que pertence Pedrógão Grande e que nada fez pela sua terra, apesar dos milhões de crentes que ainda lá estiveram o mês passado a rezar. Para que é que precisamos de um santuário e de uma santa milagreira, que sabe coisas - segredos! - se depois não faz nada por ninguém, nem pelas próprias pessoas que são da sua diocese?
E como tal, junte-se também ainda como responsáveis os Pastorinhos de Fátima, um vez que já são santos há um mês, e na sua primeira oportunidade que tiveram de fazer o seu trabalho, não fizeram qualquer milagre para evitar a tragédia – e afinal para que é que nós precisamos de santos se não sabem sequer fazer milagres? E se os santinhos falharam, isto leva-nos ao Santo Papa, pois foi ele que os ordenou santos, e que como se viu, não estavam ainda minimamente preparados para o alto cargo que a santidade lhes exige. Cadeia com o Papa também!

Em último lugar Deus, como responsável máximo por tudo aquilo que de mal criou, a começar, desde logo, pela humanidade.

sábado, 24 de junho de 2017

São João no Porto

Fernando Veludo / nFactos

Exércitos de Mortos-Vivos, aos milhares, de quem é difícil escapar por entre eles, com olhos de quem foi para a piscina nadar sem óculos de natação, munidos de martelo plástico numa mão e copo de cerveja na outra (pelo meio intervalado com o telemóvel) a correr para todo o lado e para nenhum em especial.

(E no meio de toda aquela confusão, abalroo um morto-vivo gigante e pesado, que vira-se para mim e diz: "You are very strong"!)

Avenida da Boavista



sexta-feira, 23 de junho de 2017

Artigo 19º

"Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão."





Declaração Universal dos Direitos Humanos




terça-feira, 20 de junho de 2017

Caminhos


...Não tenho ninguém ao meu lado,
Certamente isso não está certo.
Certamente isso não está certo...



"Roads" / Dummy / Portished / 1994 


Só Quando me Apetece Time

Todos nós sabemos que existem dois tipos de horários: a tempo total (Full time) e a tempo parcial (Part-time) mas hoje constatei que ainda há um outro tipo: 

É o "Só-Quando-Me-apetece Time"! referiu de forma certeira a minha colega, aludindo ao nosso colega estagiário, que apesar de muito disponível e voluntarioso, gosta de trabalhar, mas só quando o trabalho lhe cheira, e quando lhe apetece, até porque, ainda por cima, há muitas tarefas que "não lhe competem"! 



Bom, se quiserem dar-lhe um nome pomposo estrangeiro, talvez lhe possam chamar: 

"Only-when-in-the-mood Time"!


sexta-feira, 16 de junho de 2017

Será que as promessas prescrevem?

"Nunca mais ponho os pés no Hard Club".

Já foi há bem mais de dez anos. Doze ou treze anos talvez. 

Afinal já passaram mais de 14 anos. Haveria de ser remarcado a 15 Fevereiro 2003. Obrigado Internet.

O concerto era de três bandas portuguesas: Desire, Thanatoschizo e Azagatel
Eu tinha comprado previamente o bilhete na FNAC. E na semana do concerto tinha sido uma semana de cheias no rio Douro. E como rapaz previdente que era, passei na FNAC no dia do concerto para saber se este se ia mesmo realizar, e responderam-me que não tinham qualquer indicação em contrário. 

E lá fomos, eu a namorada da altura para o Hard Club, em Gaia, ali mesmo junto ao rio Douro. Chovia e ventava e a água do rio estava muito perto da estrada. Quando lá chegamos, muitas outras pessoas por lá estavam também a aguardar. E haveríamos de aguardar muito tempo. Da organização nem uma palavra. E as pessoas continuavam cá fora, ao vento e à chuva, sem perceber muito bem se ia haver concerto ou não. 

E eis senão quando, duas horas depois! vem cá fora um sujeito, de cabelo rapado dos lados, que até me pareceu ser o vocalista de uma conhecida banda rock do Porto, e coloca um papel na porta, a dizer que o concerto estava cancelado. 

Antigo Hard Club Gaia (http://oitentacoes.blogspot.pt/)

Obviamente que fiquei pior que estragado. Mas tratei de investigar. Agora que penso, se não estou em erro até estávamos no final de Dezembro de 2002. E como já havia internet na altura (ainda que eu não tivesse net em casa) tratei de contactar as bandas por e-mail, para tentar perceber o que tinha acontecido. E a banda que me respondeu foi Desire, que curiosamente até eram os de mais longe, de Lisboa. E o que fiquei a saber junto da banda, é que nem sequer estiveram no Porto no dia do concerto, pois já estava acertado com a organização do Hard Club que o evento iria ser cancelado. 

E pois então, se estava podre, ao saber da verdade pior fiquei. Questionei a organização do Hard Club e respondeu-me uma tal de Ana Póvoas. E a senhora, em vez de meter a viola ao saco e assumir o erro, não, arma-se em arrogante comigo. "Já que está tão bem informado" escreveu ela no e-mail... e ainda tive que me andar a chatear para reaver o dinheiro de volta, pois nem sequer sabia quando o concerto iria ser remarcado, e também não sabia se estaria disponível para ir, se de facto quisesse ir.

Mas na verdade eu não estava mais interessado em ir a concerto nenhum, nem estava mais interessado em pôr os pés no Hard Club, uma das salas mais interessante para concertos do país. E não estava porque como cliente não gosto de ser maltratado, pior ainda, quando reclamo ainda se armam em arrogantes comigo. E eu ia frequentemente ao Hard Club. Vi lá bastantes concertos. Mas a partir desse dia disse: "Não mais ponho os pés no Hard Club" e não pus mesmo. 

Mas três anos depois, o Hard Club de Gaia até acabaria mesmo por de encerrar portas. 

“O Hard Club vai fechar portas devido ao elevado montante de dívidas acumuladas, adianta o Correio da Manhã. O jornal adianta ainda que o espaço de Vila Nova de Gaia pode ser vendido a particulares que o transformarão num restaurante de luxo. A gerência do espaço, assegurada por Kalú, dos Xutos & Pontapés, está também a tentar assegurar um novo local para manter em funcionamento o clube, também na área do Porto.”

(http://oitentacoes.blogspot.pt/)
E haveria de reabrir, anos mais tarde, em 2010, mas do outro lado do rio, na cidade do Porto, ocupando o espaço do Mercado Ferreira Borges. Mas ao que parece a má gestão continuou, pois chegou a ser público que a empresa tinha salários em atraso aos trabalhadores e não pagava a renda mensal de 2500€ à Câmara Municipal do Porto.

Cheguei a ir lá. Mais do que uma vez. Levar amigas que não eram da cidade. Mas nunca fui a um concerto. Lembro-me até de, certa vez, uma amiga me ter feito esperar até às três da madrugada. só porque queria uns autógrafos e umas fotografias com os músicos de Anathema. 

Cheguei foi a ir ao bar para comer qualquer coisa. E esperei e esperei e esperei. Sentado! Não havia jeito dos empregados virem fazer o pedido. E acabei mesmo por me chatear, levantei-me e vim-me embora, pensando que realmente, aquela empresa, é mesmo uma casa a arder. 

Nunca mais lá meti os pés. Sim "eu sou fodido" como dizia um amigo meu. Sou fodido porque sou um homem de palavra. Mas agora estou a pouco mais de 24 horas de quebrar a promessa. Há longos meses que uma amiga me tinha convidado a ir com ela ao concerto de HIM (banda que até nem me diz grande coisa pois nunca fez parte do meu cardápio musical) mas disse-lhe que sim. Afinal, tantos anos depois, é mais importante uma amizade que uma frase dita há tantos anos. 

E na verdade o local até já nem é o mesmo, até é numa cidade diferente, apesar de curiosamente ser a pouco mais de 1Km! Mas a empresa, sim, essa é a mesma. Mas será que há aqui alguma espécie de atenuante? E afinal passaram mais de 14 anos... 

E depois, por estes dias, ela vem-me dizer que já há gente a oferecer 500€ por um bilhete. Quer dizer, 500€ é dinheiro! Bom quem sabe, por artes mágicas, ainda pode ser que o venda! Porque se não, estou na dúvida: vou ou não quebrar uma promessa 14 anos depois?

E será que as promessas também prescrevem?... assim mais ou menos como as investigações ao Paulo Portas, estão a ver?

A roupa para o Concerto

Liga-me a minha amiga. Está com uns problemas - e já sabemos que um mal nunca vem só - mas tudo o resto são coisas menores quando comparado com a situação absolutamente dramática que está a viver: não saber que roupa levar amanhã ao concerto.

- Como é possível que uma mulher não tenha planeado a roupa que ia vestir, sei lá!, pelo menos com um mês de antecedência?! 

Bom, eu acho que vou escolher da minha t-shirt mais ou menos assim:



Eta do "I Love Blood" até é bem gira. Aposto que ia fazer sucesso!

Spike, do filme Nothing Hill / 1999

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Coração de Desportista

"Já vos contei que a enfermeira disse que eu tinha um coração de desportista? Ah pois é!"

Passei o dia de ontem a dizer isto aos colegas de trabalho. E é verdade, eu por vezes consigo ser mesmo muito chato.  Por que é que acham que eu ainda estou solteiro? Não há mulher que me ature! 

Passou-se mais um ano, e lá tivemos nós mais uma consulta de medicina do trabalho. E isto agora é muito modernaço, nem temos de sair da empresa, sair e arejar, perder duas ou três horas e regressar. Agora são eles que vêm até nós, para os trabalhadores não perderem produtividade. 

Eles vêm à empresa e em minutos - não devo ter estado mais do que cinco minutos dentro da carrinha - e já nos conseguem dizer se estamos aptos ou não para trabalhar. Basta medir a pressão arterial, levar uma picada no dedo, e encostar um aparelho ao peito que se vê logo se estamos aptos ou não para trabalhar! Eu estou em crer que antigamente, quando se compravam escravos - uma pouca vergonha terem acabado com a escravatura, ao que isto chegou!, pois agora têm que pagar pelo trabalho e tudo! - e eu estou em crer que antigamente, quem comprava escravos, demorava bem mais tempo a analisar se determinado preto(a) estava em boas condições! 

Agora não há cá tempo a perder, tem de ser tudo muito rápido como convém, à tão falada produtividade. É sempre a aviar, sempre a despachar, que há muito dinheiro para ganhar noutras freguesias.



Cinco minutos e já se sabe tudo!

Um gaijo até tem um cancro terminal, está com os pés para a cova nos próximos dias, mas tem a tensão boa e os níveis de açúcar no sangue impecáveis, está apto para o trabalho! 

Eu fui logo o primeiro. As minhas colegas já tinham avisado, que ela, a enfermeira, era feia. Mulheres! Eu achei-a simpática, e para mim, feias são as mulheres que não sabem sorrir. E lá por uma mulher usar uns óculos com alguma graduação já é feia? Mulheres! 

E depois de me apertar o braço para medir a tensão arterial, e de me picar o dedo, lá me disse, depois de encostar um aparelhómetro, mais pequeno que os telemóveis de agora, ao peito:

"Pratica desporto? Tem uma frequência cardíaca baixinha, típica dos desportistas". 

(e nem queiras saber como são outros dos meus órgãos! Olha, se soubesses como é a minha vesícula ou meu fígado, ficarias boquiaberta!)

E lá empurrei a porta para ser visto pelo médico. E "ser visto" é mesmo a expressão apropriada, Ele só olhou para mim, e não fez mais nada, além de, durante um minuto me ter perguntado meia dúzia de coisas a que respondi quase sempre na negativa. E lá saí da carrinha e fui trabalhar. 

Eu já vos disse hoje que tenho um coração de desportista? 

(ou então estou a morrer!)

À Procura do Corpo de Deus

Quinta-feira, feriado.

A meio da manhã ouvia na rádio que era uma confusão de trânsito nos acessos às praias.

Brooklyn Bridge, NYC, 1951

Como em Portugal temos mais de 90% de cristãos, não tenho qualquer dúvida que, motivados pela fé, levantaram-se todos cedo e foram para a praia...

... para ver se encontravam o Corpo de Deus!


segunda-feira, 12 de junho de 2017

Correios Privados de Portugal: um Serviço de Merda II

Num só dia, duas situações. 

O meu colega de trabalho tinha encomendado umas lentes de contacto, e a empresa enviou via CTT expresso e indicou-lhe o código do registo para ele poder acompanhar a encomenda. Os CTT enviaram-lhe uma mensagem avisando que a encomenda seria entregue no dia seguinte, como aliás tem de ser.
Mas uma encomenda que deveria ser entregue na quarta-feira da semana passada, acabou por ser entregue, hoje 2a feira. Talvez a encomenda tenha primeiro ido dar uma voltazinha pela Europa antes de ser entregue! E ele como não tinha lentes para ver, teve de ir comprar algumas. 



E hoje mesmo, os meus pais foram deixar umas encomendas minhas nos correios. E eis que entretanto chega lá uma menina que andava a trabalhar para os CTT, licenciada, mas a trabalhar por conta de uma outra empresa, e diz para a menina do nosso posto que apresentou a demissão. Era o primeiro mês e pagaram-lhe, tarde e a más horas, um salário de 300€ e ainda tinha de utilizar o próprio carro para trabalhar! 

"Lá vão as pilhas de cartas aumentar de novo" disse a nossa funcionário do posto dos correios. 

Vergonha Passos? Vergonha foi teres privatizado o serviço de correios que agora está uma valente merda, e que antes, quando era público, era reconhecido como um dos melhores do mundo. 
Borra a cara com merda antes de falares em vergonha. 

domingo, 11 de junho de 2017

O Jardim


Eu bem ando pelos jardins que tanto me apaziguam
E bem olho as heras a crescer
Mas nem por isso se faz Luz
e entendo os planos maquiavélicos que Tens
para mim...


"The Garden" / Kari Jobe / 2017



terça-feira, 6 de junho de 2017

Eu vou ao Fundo mas tu vens Comigo

Todos os dias às 8h15, uma vítima de gémeos fala sobre como os filhos são do pior que pode acontecer a uma pessoa.

No programa de hoje da Antena 3 é absurdamente genial:

"Hoje gostava de mostrar aqui a minha solidariedade no que toca às pessoas sem filhos. As pessoas sem filhos sofrem de um bullying tramado. Fogo. Je-suis-pessoas-sem filhos (só que com filhos). Aliás, eu quanto mais tenho filhos mais percebo as pessoas sem filhos. Há duas grandes razões para uma pessoa não ter filhos, mas já lá vamos, porque primeiro há duas grandes razões para as pessoas fazerem perguntas. 

Uma é porque sim. Porque o ser humano é assim pró perguntadeiro. A outra é uma teoria que eu cá tenho. Que é a teoria do "eu vou ao fundo, mas tu vens comigo".As pessoas com filhos ficam assim com uma espécie de uma estranheza... 
Namoraram, casaram...mas não têm filhos! É como se a vida tivesse dado erro. Empancou ali e não anda mais. 

E depois estão ali enterradas num lodo de fraldas e birras e ranho e gritos, e querem arrastar mais uns quantos para a lama, só para não terem de os ver acordarem ao meio-dia, ou a fazerem o que lhes apetecem, só porque podem. E depois pensam: "então, estou aqui eu tão ocupado a ser um adulto - quem são estes irresponsáveis que ousam continuar a divertir-se como se não houvesse amanhã? Não ouviram o chamamento, hein?" 


E então claro, lá vem a perguntinha não é? Então e vocês,quando é que tem filhos? Quando é que fazem um destes?  Também aqui há duas grandes razões para uma pessoa não ter filhos. 
Uma é porque não quer. A outra é porque não pode. E como é que nós sabemos de qual dos casos se trata? Não sabemos! 

Mas, calma, eu penso que, eu não sei... Eu não tenho a certeza absoluta do que estou a dizer, mas eu penso que a Terra vai continuar a cumprir a sua rotação mesmo se as pessoas não estiverem no poder dessa informação sobre a vida dos outros. Até porque parecendo que não, perguntar uma coisa a uma pessoa que ela quer e não tem, pode ser chato. Se for uma coisa que ela não tem e não quer, se calhar não tanto, mas não há muito por onde escapar. Por isso, a menos que alguém diga, o melhor é fazer como dizia o outro, e seguir a máxima: "Se não sabe, então por que é que pergunta"? 

Inês Lopes Gonçalves / O Pior do Mundo são as crianças

O Pior do Mundo São as Crianças de 06 Jun 2017


Era o António que Mexia

Portugal é o quarto país da Europa onde as famílias pagam a eletricidade mais cara. Mas para António Mexia, ex-ministro do PSD e atual presidente da EDP: 

"A eletricidade não é cara. As casas é que estão mal construídas"!


Lá está mais uma vez a lógica da batata, pois se eu construir uma casa muito bem construída estou em crer que que o preço que a EDP me cobra continuará a ser o mesmo, ou será que por a casa ser bem construída, de noite não preciso de acender as lâmpadas, nem cozinhar ou ligar o computador à corrente? 

Mas depois de, por estes dias, ter ficado a saber que o senhor presidente da EDP foi constituído arguido por corrupção,



..então finalmente percebi. A eletricidade não é cara em Portugal, o António é que Mexia no meu contador e no meu bolso!

(Claro que devemos sempre presumir a inocência dos arguidos. O problema é que os ricos e os políticos em Portugal são (quase) sempre inocentes! E depois este trocadilho estava mesmo a pedi-las!)

domingo, 4 de junho de 2017

Maxmat desenvolve novo Combustível: GAZOLINA!

Ando a pensar em comprar um corta-relva a combustão, mas fiquei surpreendido com um novo tipo de combustível que a Max Mat está a comercializar: a Gazolina!! Alguém sabe-me elucidar acerca deste novo combustível?



Agora a sério, pergunto-me como é que uma grande empresa como esta não tem um revisor para os seus catálogos. Eram escusados estes atropelos ao português.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Câmaras Municipais: Centros de Dia dos Ladrões Velhinhos


Valentim Loureiro, 78 anos volta-se a candidatar à Câmara de Gondomar depois de ter sido condenado a uma pena de três anos de cadeia. 
Avelino Ferreira Torres, 72 anos, condenado a três anos de cadeia, é candidato à Câmara Municipal de Amarante. 
Isaltino Morais, 67 anos, condenado a sete anos de cadeia e perda de mandato, é de novo candidato à Câmara Municipal 
de Oeiras. 

Eu estou em crer que muitos gondomarenses já estarão a pensar em renovar alguns eletrodomésticos! E muitos outros eleitores já estarão a ressacar por poderem votar num candidato ladrão, mas daqueles com diploma, condenados em tribunal e tudo. 

Mas ladrões ou não, todos estes autarcas velhinhos acharão que as câmaras municipais são os novos centros de dia para cuidar deles. Daqui por uns meses logo veremos o que os eleitores acharão da ideia do regresso deles. 

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Assuntos Bem Resolvidos

Depois eu percebi. Ela nunca gostou muito de despedidas. Já eu, quase que me despeço das pessoas como se fosse a última vez que as estou a ver. No entanto eu esperei até ao último dia que ela me contactasse para se despedir de mim. Como eu precisava de um último abraço dela. Ela sabe que aquela última semana de Maio não foi das melhores semanas da minha vida. A angústia e o desespero começou a tomar conta de mim. É como se acabássemos de escalar uma grande montanha e, subitamente, escorregamos. O tempo congela, e não tem mais volta, sabemos que, por mais que tentemos nos agarrar, não vamos conseguir. Estamos perdidos. Só vamos parar lá baixo: despedaçados.  

Por motivos completamente diferentes, aquela também não terá sido uma boa última semana de Maio para ela. No meio de todo aquele turbilhão familiar, e das amigas, lá pelo meio ela sabia que também existia eu: por mais que não quisesse, ela sabia que me estava a magoar profundamente. E bem que depois eu percebi que há já algumas semanas que ela já me estava a preparar, ou melhor, há algumas semanas que ela se estaria a preparar, tentando descobrir uma forma de me administrar uma anestesia para o que iria acontecer. 

E como me divertiu depois, tal como agora que me lembro, pensar que eu lhe havia dito - logo a ela! - que haveria de ser ela que me haveria de deixar. Mas nunca se está preparado. Não eu, que sempre que escalo, faço-o sem pára-quedas, e já se sabe, se algo correr mal, não há salvação possível. 

Naquele último dia, naquela última viagem, montada no meu cavalo preto e agarrada a mim, ela dizia-me "Tens de aceitar, se não aceitares vai ser muito mais doloroso para ti". E eu disse-lhe de forma veemente que "Não aceito". Claro que, teoricamente, ela tinha razão, mas eu acho que ela também saberá que eu tinha os meus motivos em não aceitar. Eu havia esperado nove anos por ela e convenhamos que nove anos é muito tempo. É muito tempo, para que depois de ter escalado nova montanha - e por detrás de uma grande montanha há sempre outra maior não é? - e de ter chegado lá acima, a vida me tivesse pregado tamanha armadilha. "Não aceito" gritei-lhe, enquanto tentava conter as lágrimas... 

Via Pinterest
E o dia do voo haveria de chegar. E não nos haveríamos de despedir. E ela voava, literalmente, para longe de mim. O bilhete era só de ida, sem regresso, e eu sabia que ela não mais haveria de voar para mim. Pelo menos não nesta vida. 

Mas meses depois, e por iniciativa dela, visto que eu nem fazia ideia que ela estava uns dias por Portugal, haveríamos então de nos reencontrar. E tantas vezes que eu ensaiei aquele momento mas não foi preciso. Ela tomou conta da ocorrência, e haveríamos de nos abraçar mal chegamos junto um do outro. 

Eu agradeci-lhe por ela fazer questão de se querer encontrar comigo. Ela disse-me que ela é que me tinha de me agradecer por eu, apesar de tudo, estar ali com ela. E eu acho que, se foi tão importante para mim que nos apaziguássemos, que ficássemos em paz um com o outro, talvez para ela, e por diferentes motivos, tivesse sido ainda mais importante. 

À pouco, mal cheguei a casa, pensei nisso. Completam-se agora dois anos. E orgulho-me por termos ficado bem. Ambos, fruto da idade e já com experiências passadas, concordávamos que só quando termina uma relação, ou só sob uma grande tensão emocional, é que conhecemos verdadeiramente quem é a outra pessoa que esteve connosco. Se lhe perguntarem, ela irá dizer que já me conhecia muito bem - e não tenho dúvidas disso - mas cá entre nós, eu também não tenho dúvidas que depois que ela voou para longe de mim, ela ficou a conhecer-me com muito mais conhecimento de causa.

Vamos estando em contacto. E vamo-nos escrevendo regularmente. E ela até foi um daqueles anjos que, todos os dias me perguntava como eu estava depois da cirurgia e, este ano, até conseguiu o feito extraordinário de ser a primeira pessoa a dar-me os parabéns!, se calhar também para contrabalançar com o ano anterior!  

Mas passado todo este tempo, só queremos que o outro seja feliz, e quando desejamos que a pessoa que tanto queríamos ao nosso lado possa ser feliz sem nós, isso de facto é muito bonito. E se as pessoas passam a vida a falar da questão dos assuntos mal resolvidos nas relações, aqui trata-se do oposto. Foi um assunto bem resolvido. Um dia ainda me dirão que foi bem resolvido demais. E quais as implicações disso? O futuro me dirá dentro de momentos...

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Depressão: o confronto com o inevitável

O último programa "O Amor é" da Antena 1, que ouvi ontem, versou sobre um artigo que saiu a semana passada no El País, e que refere que dois milhões e meio de espanhóis sofrem de depressão, e que a depressão em 2030 será a primeira causa de incapacidade no mundo. Já o programa  caminhava para o fim, quando retive estas palavras do mestre, e que eu mesmo digo tantas vezes:

"O que não se pode esperar é que, seja qual for a pastilha, vá alterar essas condições, que estão a pôr-lhe a cabeça num torno, ou que modifiquem formas de funcionar que se tornaram em si reflexas e que fazem com que a sua vida não corra bem, e que você se prejudica a si mesma. Não pode pedir isso à pastilha. Em contrapartida,numa psicoterapia pode descobrir isso e pode modificar maneiras de funcionar. O que não é fácil. 

Porque, por exemplo, para essas pessoas (na maior parte das vezes) de uma forma inconsciente, por incrível que lhe possa parecer, a situação que, neste momento as atormenta é má, mas a resolução dessa situação é ainda mais ameaçadora. 

Vou-lhe dar um exemplo clássico (que mostra bem como estou num dia sem réstia de imaginação!) : se aquela pessoa está deprimida por a sua vida conjugal ou a sua relação estar de pantanas, e ela sofre forte e feio, mas se a pessoa, durante a psicoterapia, começa, consciente ou inconscientemente, a aperceber-se que a única maneira de resolver aquilo é a separação, a pessoa pode desaparecer da psicoterapia. Porque a hipótese da separação, é ainda mais aterradora do que a maneira como sofre. 
Ou por questões religiosas, ou porque na família nunca ninguém se divorciou, ou porque tem lá um medo, pânico, de ficar sozinha, ou por, uma miríade de razões: é mais ameaçador sair daquele estado, do que nele ficar, e esta pessoa pode, por exemplo, tornar-se deprimida crónica. 

Júlio Machado Vaz 

Para ouvir o programa: A depressão ainda é um tabu

sábado, 27 de maio de 2017

Para a Eternidade...



... O tempo aqui parou
Desde que te foste embora
Só a saudade ficou
já não aguento tanta demora

Tenho tanto por dizer 
Tanto por te contar 
Que a vida não chega 
Tenho o céu e tenho o mar 
E tanto para te dar 
Que a vida não chega 

Tenho tanto por dizer 
Tanto por te contar 
Que a vida não chega 
Tenho o céu e tenho o mar 
E sei que vou te amar 
Para a eternidade...



"A vida não chega" / Amores Imperfeitos / Viviane / 2005


Como é que se pode dizer a uma pessoa que é demasiado feliz?

Quase todos os dias, de manhã, na viagem de casa para o trabalho, ouço o programa da Antena 1 "Portugueses no Mundo", em que ouvimos as experiências de diferentes portugueses que decidiram emigrar para estudar ou trabalhar noutros países do mundo. Aprende-se muito sobre as diferentes culturas, e muitas vezes retenho algumas coisas, como neste episódio:


- Como é que foi quando chegou a Colónia?

Cheguei à Alemanha em Janeiro, estava frio, frio, frio. E além do tempo frio, as pessoas também são frias e Portugal era uma coisa praticamente desconhecida. Portanto nós eramos uma província de Espanha, nós falávamos todos espanhol, com jeitinho também falávamos francês, e foi todo um processo de explicar que isso não é verdade. Nós somos um país, e somos um grande país, apesar de estarmos na pontinha da Europa... E uma das coisas que me disseram e que me deixou profundamente chocada foi que eu sorria muito e que eu não podia ser tão feliz. Quando eu ouvi isto eu fiquei como assim? Como é que se pode dizer a uma pessoa que é demasiado feliz? Eles são pessoas muito frias, os alemães em geral, mas depois de um processo de adaptação corre bem, só que temos de nos adaptar.

Mafalda Pereira, 24 anos,  há um ano e meio na Alemanha

O programa pode ser ouvido aqui.


quarta-feira, 24 de maio de 2017

Inveja do Pénis & Obsessões Urinárias

O caso mais interessante é o de Florrie recolhido por Havelock Ellis (Psycology of sex), e cuja análise Stekel retomou posteriormente. Dou portanto aqui o relato minucioso do caso:

Trata-se de uma mulher muito inteligente, artista, ativa, biologicamente normal e não invertida. Conta ela que a função urinária desempenhou papel importante na sua infância; brincava aos jogos urinários com os irmãos e molhavam as mãos sem nenhuma repugnância: 

“As minhas primeiras concepções da superioridade dos homens relacionaram-se com os órgãos urinários. Ressentia-me da Natureza por me ter privado de um órgão tão cómodo e tão decorativo. Nenhuma chaleira privada do seu bico jamais se achou tão miserável. Ninguém precisou insuflar-me a teoria da predominância e da superioridade masculinas. Tinha uma prova constante sob os olhos”.
 
Ela própria experimentava grande prazer em urinar no campo. 

“Nada se lhe afigurava comparável ao ruído encantador do jato sobre as folhas mortas em um recanto de bosque e ela observava-lhe a absorção. Mas o que mais a fascinava era urinar na água.” 

É um prazer a que muitos rapazes são sensíveis e há toda uma série de estampas pueris e vulgares que mostram rapazes urinando em tanques ou regatos. Florrie queixa-se de que a forma das suas calças a impedia de se entregar às experiências que quisera tentar; muitas vezes durante os passeios no campo, acontecia-lhe reter a urina o mais possível e, bruscamente, aliviar-se de pé. 


“Recordo perfeitamente a sensação estranha e proibida desse prazer e também meu espanto de que o jato pudesse sair quando eu estava em pé.” 

A seu ver, as formas das roupas infantis têm ‘muita importância na psicologia da mulher em geral. 

“Não foi apenas para mim uma fonte de aborrecimentos ter de desfazer-me das calças e depois abaixar-me para não lhe sujar a frente. A parte de trás, que deve ser puxada e deixa as nádegas a nu, explica por que, em muitas mulheres, o pudor situa-se atrás e não na frente. A primeira distinção sexual que se impôs a mim, na verdade, a grande diferença, foi verificar que os rapazes urinavam de pé e as meninas agachadas. Foi provavelmente assim que meus mais antigos sentimentos de pudor se associaram às minhas nádegas mais do que a meu púbis.” 

Todas essas impressões assumiram, em Florrie, importância extrema porque o pai chicoteava-a frequentemente até fazer sangue e uma governante, certa vez, batera-lhe a fim de obrigá-la a urinar; ela era obcecada por sonhos e fantasias masoquistas em que se via açoitada por uma preceptora sob os olhos de toda a escola e urinando, então, contra a vontade, “ideia que me causava uma sensação de prazer realmente curiosa”. Aos 15 anos, aconteceu-lhe urinar de pé, na rua deserta, instada por uma necessidade urgente. 

“Analisando as minhas sensações, penso que a mais importante era a vergonha de estar em pé e o comprimento do trajeto que o jato deveria percorrer entre mim e a terra. Essa distância fazia disso algo importante e visível, ainda que que vestido o escondesse. Na atitude habitual havia um elemento de intimidade. Quando criança, o jato, mesmo grande, não podia percorrer um longo trajeto; mas, com quinze anos e alta, senti vergonha em pensar no comprimento do trajeto. Tenho certeza de que as senhoras às quais me referi, que fugiram apavoradas do mictório moderno de Portsmouth, consideraram muito indecente para uma mulher ficar em pé e de pernas abertas, levantar as saias e projetar tão longo jato por baixo.” 

Florrie recomeçou aos vinte anos a experiência e a repetiu, posteriormente, muitas vezes; sentia uma mistura de volúpia e de vergonha à ideia de que podia ser surpreendida, sendo-lhe impossível parar. 

“O jato parecia sair de mim sem meu consentimento e, no entanto, causava-me maior prazer do que se o houvesse feito voluntariamente"

Essa sensação curiosa de que é tirado de nós por algum poder invisível, que decidiu que o faríamos, é um prazer exclusivamente feminino e de um encanto sutil. Há um encanto agudo em sentir a torrente sair em virtude de uma força mais poderosa do que nós mesmas.” Posteriormente, Florrie desenvolveu em si um erotismo flagelatório sempre acompanhado de obsessões urinárias.